segunda-feira, novembro 08, 2010

Joãos e Marias



          Quando dizem que somos gente rara, não estão errados: basta olhar em volta. Todas essas pessoas tão sistematizadas, tão mecânicas em tudo o que fazem, nas coisas que gostam, nos discursos que repetem. Vê-se uma massa uniforme de cabeças sendo arrastadas na mesma direção, como quando as ondas do mar devolvem as oferendas encharcadas e disformes à beira da praia - devolvem num grito silencioso, implorando para que parem de insistir em crenças que não trarão resultado.


          Observa-se, atualmente, uma juventude sem personalidade, agindo como uma manada de corpos de rostos apagados, eternamente caminhando rumo a nada; gastando a vida sem se preocupar com o sentido dela. Nós não somos assim, e isso servirá para a “dor do mundo”.


          E quando nossa complexidade é apenas uma desculpa para manter afastadas as pessoas que temos preguiça de questionar? Poucas brigas valem à pena, e em geral são aquelas que começam quando compramos a dor alheia. Inegavelmente, quando nos expomos ou emprestamos nosso nome ao acaso ou ao incerto apenas por comodidade, é o momento no qual nossa privacidade “vaza” e nos tornamos alvo de críticas, sujeitos à avaliação e a julgamentos sem verossimilhança alguma ou, até mesmo, miseráveis.
          Há pessoas que se alimentam de nossas fraquezas e permanecem em constante vigília, atentos aos nossos tropeços, prontos para rir de nossos tombos e apontar um ou o “dedo sujo” para nos acusar quando transparecemos culpa ou pena no olhar. Somos infiéis por natureza, e às vezes por obsessão ante provas concretas e fatos registrados. Não gostamos de estradas muito escuras, nem de sapatos apertados e muito menos de deuses inventados ou invisíveis. Somos descrentes porque optamos pela sanidade e ainda não precisamos apelar à justificativas doentias e mirabolantes para nossos crimes: nós assumimos - nós e todas as pessoas que vivem aqui dentro, usando nossa voz.
          Somos mesquinhos, indisciplinados e verdadeiros ao extremo, contudo, somos admirados e desafiados e a inveja se revela em meio às tentativas falhas de nos humilhar. Ah, o prazer de vencer uma batalha sem sujar as mãos, sem erguer o tom, sem tirar os pés do chão é algo para quem anda de mãos dadas. Saímo-nos bem da situação, certamente sem nenhum arranhão, e até mais fortes depois de conhecer quanta gente pode surgir para nos apoiar, mesmo que ínfima seja essa porção. Somos gratos de fato, e prezamos a gratidão e a justiça bem dita, poder invisível em algumas mãos.

Andros Romontey.

6 comentários:

GabilindadoAndré disse...

Perfeito. Perfeito e perfeito. Não conheço alguém que escreva assim. Exceto você.

Leonardo S disse...

Achei radical, porém coerente, seu comentário acerca da massa de cabeças levadas e pessoas sistematizadas. É comum - e até cansativo - ouvir os mesmos planos, as mesmas ambições por todos que nos cercam. É importante que busquemos nossa individualidade, porém sem esmagar e humilhar os outros. Chega de pensamentos e esteriótipos primitivos. Vivemos no século XXI. Excelente reflexão.

Anônimo disse...

é tudo culpa da mídia!!
bom texto!

James do Bonde disse...

é. não sei como era antes dessa nossa geração, mas acho que seguia no mesmo estilo, e penso que sim, nós somos e nos deixamos ser manipulados - nossas opiniões não são nossas, nossas ideias, nosso embasamento crítico, tudo isso a gente acaba absorvendo como nosso sem refletir ou pensar sobre isso. A gente só tá recebendo a ação, o pensamento, sem agir sobre ele.
E eu to incluso nisso, querendo ou não, hehe
Mto bom, Andros!

João Victor Alves disse...

Tudo é culpa do "sistema". aoseiaosie. Ele tenta padronizar as pessoas, e principalmente os jovens, pois serão o futuro da humanidade. Porém, devemos tomar decisões e inicativas que venham de nós, pois só assim estaremos sendo exceção, não-manipuláveis. Temos que ter senso crítico e, claro, humildade. Não devemos querer ganhar vantagem em cima dos outros. Todos somos iguais em essência.(é, talvez eu tenha mudado o foco verdadeiro da postagem :P)
Você escreve muito bem, Sr. Andros. Você é jornalista?

musadoverao2010 disse...

Gostei dos argumentos apresentados em todo o texto, mas o final me chamou a atenção. Realmente é muito bom saber que você não está sozinho, não importa qual seja a situação, e é esse sentimento bom que estas pessoas nos proporcionam que nos faz querer melhorar a cada dia.